
É cada vez mais comum nas famílias brasileiras a necessidade de contratar um seguro para dois carros ou mais: um veículo para o deslocamento profissional, outro para as tarefas domésticas e, às vezes, um terceiro para os filhos. Ter múltiplos veículos traz conforto, mas também exige estratégias inteligentes para que o custo das apólices não pese no orçamento.
Mas aqui está o segredo que as seguradoras não anunciam em outdoors: o segundo seguro não precisa custar o mesmo preço do primeiro.
Se você tem mais de um veículo na mesma residência, você tem poder de barganha. O mercado chama isso informalmente de “Frota Familiar” ou “Desconto de Relacionamento”.
Segundo a FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), a concentração de apólices em um único grupo familiar é uma estratégia que permite às seguradoras reduzirem custos operacionais, possibilitando o repasse de descontos comerciais por fidelidade.
Neste guia, vamos te ensinar a deixar de tratar cada carro como um boleto isolado e passar a negociar como um “gestor de frota”, economizando até 15% ou 20% no custo total anual do seguro para dois carros (ou mais).
Estratégia 1: A Regra da “Fidelidade Cruzada” no seguro para dois carros
O erro número 1 das famílias é ter o seguro do carro do marido na Seguradora A (fechada pelo gerente do banco) e o seguro do carro da esposa na Seguradora B (fechada por um corretor online).
Seguradoras operam por volume. Elas querem todos os seus riscos.
Quando você cota o segundo carro na mesma seguradora onde já tem o primeiro, o sistema geralmente libera um desconto automático chamado “Desconto de Fidelidade” ou “Desconto de Congênere”.
- Como funciona: Ao cotar o seguro do segundo carro, o corretor informa o número da apólice do primeiro.
- O ganho: Descontos que variam de 5% a 10% no segundo seguro. Algumas seguradoras (como a Azul e a Porto Seguro) estendem esse desconto até para a renovação do primeiro carro.
Dica Prática: Centralize tudo com um único corretor. É ele quem consegue aplicar esse vínculo no sistema. Se cada carro estiver com um corretor diferente, eles não conseguem “linkar” os descontos.
Estratégia 2: Transferência de Bônus entre Cônjuges (O Pulo do Gato)
Você sabia que pode “doar” sua reputação de bom motorista para sua esposa ou marido?
A Classe de Bônus é aquele desconto progressivo que você ganha a cada ano sem bater (Classe 1, 2, 3… até 10). Muitas vezes, o marido tem Classe 10 (máximo desconto) no carro dele. A família compra um segundo carro para a esposa, que nunca teve seguro no nome dela. Esse cenário é muito frequente no seguro auto para idosos, onde o histórico de décadas sem sinistros acumulado pelo segurado sênior gera um bônus valioso para a família.
Normalmente, o seguro da esposa começaria na Classe 0 (o mais caro). O Segredo: É possível utilizar o bônus do marido para conseguir um preço melhor? Diretamente, não (o bônus não se duplica). Mas existe uma manobra legal chamada Transferência de Bônus entre Cônjuges.
Se o marido vender o carro dele e for usar apenas o da esposa, ele pode passar o bônus para ela. Mas se a família vai manter os dois carros, o ideal é usar a estratégia do Segurado Principal.
- O marido (Classe 10) pode ser o Segurado (dono da apólice) do segundo carro também, colocando a esposa apenas como Principal Condutora.
- A vantagem: O seguro já nasce com um preço mais baixo por causa do perfil do segurado (histórico de cliente), embora a classe de bônus do segundo item comece do zero. O “peso” do CPF do marido ajuda a baixar a nota de risco inicial.
Estratégia 3: O Perfil de “Uso Esporádico”
Geralmente, quando uma casa tem dois carros, um é o “titular” (roda todo dia) e o outro é o “reserva” (roda pouco, finais de semana ou distâncias curtas).
O erro é fazer o seguro do segundo carro com as mesmas coberturas do primeiro.
Se o segundo carro roda pouco:
- Reduza a KM contratada: Avise que roda menos de 500km/mês.
- Tire o Carro Reserva: Se o segundo carro quebrar, você usa o primeiro carro da família ou Uber. Pagar por carro reserva em dois veículos é redundância desnecessária. Economia de ~R$ 400,00.
- Ajuste a cobertura de terceiros: Se o segundo carro só circula no bairro (mercado/escola), o risco de grandes acidentes em rodovias é menor.
Seguro Frota Familiar: Quando vale a pena?
Você já deve ter ouvido falar de “Seguro Frota”, onde se faz uma apólice única para vários carros.
A verdade nua e crua: Para 2 ou 3 carros, o “Seguro Frota” oficial (apólice coletiva) raramente compensa ou sequer é aceito pelas seguradoras (que exigem mínimo de 4 ou 5 veículos).
Para famílias com 2 ou 3 carros, o modelo “Apólices Individuais na Mesma Seguradora” é financeiramente melhor que o modelo de Frota. O modelo de Frota tira a individualidade do bônus. Se um filho bater o carro 1, a apólice da frota toda pode encarecer no ano seguinte. Nas apólices individuais, cada um cuida do seu bônus.
Exceção: Famílias muito grandes ou com carros de coleção. Se você tem 5 carros em casa, aí sim peça uma cotação de “Frota Familiar”. O desconto administrativo pode chegar a 25%.
Simulação: A Economia do “Combo”

Vamos simular uma família de classe média com dois veículos.
Veículo 1 (Marido): Jeep Compass (Seguro isolado: R$ 4.500) Veículo 2 (Esposa): Honda City (Seguro isolado: R$ 3.200)
Cenário A: Contratação Separada (Corretores diferentes)
- Total Anual: R$ 7.700,00
Cenário B: Contratação Unificada (Estratégia Combo)
- Mesma Seguradora (ativa desconto de relacionamento de 10% no segundo carro e 5% na renovação do primeiro).
- Cartão de Crédito da Seguradora (desconto adicional de 5% no total).
- Unificação do corretor (margem de negociação comercial).
- Seguro Compass (com desconto): R$ 4.275,00
- Seguro City (com desconto): R$ 2.880,00
- Total Anual: R$ 7.155,00
Economia Real: R$ 545,00. (Dinheiro suficiente para pagar 2 ou 3 tanques de combustível).
E se um dos carros for de filho jovem?
Nesta situação, o valor da apólice é impactado diretamente pelo perfil do seguro para motorista iniciante, que possui uma precificação distinta devido ao tempo de habilitação.
Aqui mora o perigo. Se você tem um carro para você e compra outro para seu filho de 20 anos:
- Nunca minta o condutor. Não coloque o seguro no seu nome dizendo que você dirige, se é o seu filho que vai para a faculdade. Se ele bater, a seguradora não paga (perfil fraudado).
- A estratégia vertical: Faça o seguro no nome do seu filho para ele começar a ganhar a própria Classe de Bônus. Vai ser caro no primeiro ano? Vai. Mas aos 25 anos ele já terá Bônus 5, pagando metade do preço. Se você segurar no seu nome, ele nunca cria histórico.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Posso transferir meu bônus para o segundo carro?
Não. O bônus é único por veículo. Se você tem Bônus 10 no Carro A e compra o Carro B, o Carro A continua com Bônus 10 e o Carro B nasce com Bônus 0. O bônus não se “duplica”. O que você consegue é um desconto comercial por já ser cliente.
Vale a pena colocar rastreador nos dois carros?
Muitas empresas de rastreamento oferecem o segundo aparelho com instalação grátis ou mensalidade reduzida. Se os carros não têm seguro total (apenas roubo/furto), fazer o “combo” do rastreador é muito vantajoso.
O desconto vale para motos também?
Sim! Se você tem um carro e uma moto, fazer o seguro de ambos na mesma seguradora (ex: Porto Seguro ou Suhai) ativa os mesmos descontos de relacionamento.
Conclusão: O poder está no pacote
Ter dois carros é caro, mas administrá-los de forma inteligente reduz o impacto. A regra de ouro é: nunca renove um sem pedir para cotar o outro junto. Ao concentrar seus veículos (e até o seguro residencial) na mesma companhia, você deixa de ser um “cliente avulso” e vira um “cliente preferencial”. E cliente preferencial paga menos.

