
Bateu o Carro? O Que Fazer nos Primeiros 5 Minutos
Seu coração está disparado. As mãos tremem. O susto ainda está passando. Você acabou de bater o carro e agora está pensando: “e agora?”
Respira fundo. Você não está sozinho. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, mais de 400 mil acidentes sem vítimas acontecem por ano no Brasil. Isso significa que centenas de pessoas passam por essa situação todos os dias.
A boa notícia: saber exatamente o que fazer nos primeiros 5 minutos pode fazer toda a diferença entre resolver o problema rapidamente ou ter dor de cabeça (e prejuízo) por meses.
Este guia foi feito para você que está agora, neste momento, lidando com um acidente. Vamos direto ao ponto, sem enrolação.
Checklist: O que fazer após bater o carro para lidar com o estresse do acidente
Siga estes passos nesta ordem exata. Não pule nenhum.
Minuto 1: Verifique se há feridos
Primeira ação: Cheque você, seus passageiros e as pessoas do outro carro.
Se alguém estiver ferido:
- Ligue imediatamente para o SAMU: 192
- Não mova a pessoa (a menos que haja risco de explosão ou incêndio)
- Se a vítima estiver consciente, tente tranquilizá-la
- Espere a chegada do socorro
Atenção: Prestar socorro é obrigatório por lei. Deixar de socorrer pode gerar multa gravíssima, suspensão da CNH e até detenção (Artigo 304 do CTB).
Minuto 2: Sinalize o local
Objetivo: Evitar que outros carros batam no seu (o que acontece mais do que você imagina).
Como fazer:
- Ligue o pisca-alerta imediatamente
- Pegue o triângulo de sinalização no porta-malas
- Coloque o triângulo a 30 metros do carro (conte aproximadamente 40 passos)
- Se for à noite ou em rodovia, coloque a 50 metros
Não tem triângulo? Você será multado em R$ 130,16 + 4 pontos na CNH. Mas improvise com galhos, folhas ou qualquer coisa visível enquanto espera ajuda.
Dica de segurança: Antes de sair do carro, olhe bem o trânsito. Vista o colete refletor se tiver. Em rodovias de alta velocidade, é mais seguro ficar dentro do carro com o cinto apertado até a ajuda chegar.
Minuto 3: Fotografe TUDO
Por que: As fotos são suas provas. Sem elas, vira “palavra contra palavra”.
O que fotografar (nesta ordem):
Fotos gerais (3-4 fotos):
- Vista panorâmica do acidente (posição dos carros na via)
- Placas de sinalização próximas (semáforo, faixa de pedestres, placa de pare)
- Marcas de frenagem no chão (se houver)
Fotos dos danos (5-6 fotos por carro):
- Frente, traseira, laterais
- Detalhes dos danos (amassados, riscos, peças quebradas)
- Placa do carro (sua e do outro)
- Hodômetro (comprovação de km rodado)
Fotos extras importantes:
- CNH do outro motorista (frente e verso)
- Documento do carro dele (CRLV)
- Se ele tiver seguro, tire foto do adesivo ou cartão da seguradora
Tempo total: 2-3 minutos para todas as fotos.
Minuto 4: Converse com o outro motorista
Como abordar:
Mantenha a calma. Mesmo que você esteja nervoso ou com raiva, não adianta brigar. Isso só piora.
Seja respeitoso. Comece com: “Você está bem? Alguém se machucou?”
Não admita culpa. Nunca diga “foi minha culpa” ou “desculpa, eu errei”. Deixe que a seguradora ou perícia determine isso. Mesmo que você ache que foi culpa sua, espere a análise oficial.
Troque informações:
- Nome completo
- Telefone (WhatsApp de preferência)
- Endereço
- Dados do seguro (se tiver)
- Placa e modelo do carro
Se houver testemunhas: Pegue o nome e telefone. Elas podem ser cruciais depois.
Minuto 5: Decida: B.O. ou acordo?
Faça o Boletim de Ocorrência (B.O.) SE:
- Houve feridos (obrigatório)
- Há discordância sobre quem causou o acidente
- O outro motorista está alterado, agressivo ou embriagado
- Você não confia na versão do outro
- Danos graves (acima de R$ 5.000)
Como fazer o B.O.:
- Com vítimas: Chame a Polícia Militar (190) ao local
- Sem vítimas: Faça online no site da PM do seu estado ou vá presencialmente ao posto mais próximo
Acordo entre as partes (sem B.O.) SE:
- Batida leve (só arranhões ou amassados pequenos)
- Vocês concordam sobre quem causou
- Ambos estão calmos e dispostos a resolver
- Danos abaixo de R$ 3.000
Atenção: Mesmo em acordo, tire todas as fotos e pegue os dados do outro. Se ele sumir depois ou não pagar, você precisará dessas provas.
Se não houver vítimas, você não precisa esperar a viatura no local. Para oficializar o acidente e garantir seus direitos no seguro, você pode registrar a ocorrência policial online diretamente pelo portal unificado do Governo Federal, que te direcionará para a delegacia eletrônica do seu estado.
Resolvida a emergência e o guincho a caminho, o próximo passo é garantir que sua rotina não pare. Verifique na sua apólice as condições para utilizar o carro reserva no seguro auto enquanto o seu veículo estiver no conserto.
O que NUNCA fazer após bater o carro
Esses erros podem custar sua indenização ou te render processos.
Erro 1: Sair do local antes de tudo resolver
O que acontece: Fugir do local de acidente é crime (omissão de socorro). Você pode ser preso e perder a CNH.
Exceção: Se você estiver em local de risco (assalto, turba agressiva), saia e vá até um posto policial próximo registrar o B.O. imediatamente.
Erro 2: Mover o carro antes de fotografar
O que acontece: A seguradora pode recusar a indenização por falta de provas da dinâmica do acidente.
Como fazer certo:
- Fotografe primeiro (1 minuto)
- Depois remova o carro da via (se for possível e seguro)
Exceção: Se os carros estão obstruindo via expressa e há risco de novos acidentes, remova primeiro. Mas tente tirar ao menos 2 fotos rápidas com o celular antes.
Erro 3: Assinar qualquer papel sem ler
O outro motorista pode tentar te fazer assinar uma declaração dizendo que você causou o acidente ou que assume todos os custos.
Nunca assine nada no local. Diga educadamente: “Vou analisar com calma e te retorno.”
Erro 4: Deixar o carro e ir embora (mesmo que pareça ok)
Danos internos (suspensão, motor, câmbio) podem não ser visíveis no momento. Se você for embora sem documentar, fica impossível provar depois que foi causado pelo acidente.
Quando vale acionar o seguro?

Nem toda batida compensa acionar o seguro. Aqui está a matemática:
Vale acionar SE:
Prejuízo > Franquia + Aumento futuro
Exemplo prático:
- Franquia: R$ 3.000
- Prejuízo estimado: R$ 8.000
- Aumento na renovação: R$ 600/ano (por 2-3 anos)
Conta: R$ 8.000 (prejuízo) – R$ 3.000 (franquia) = R$ 5.000 que o seguro paga.
Você economiza R$ 5.000 agora, mas paga R$ 600 a mais por ano (R$ 1.800 em 3 anos). Ainda assim, vale (você economizou R$ 3.200 líquido).
NÃO vale acionar SE:
Prejuízo < Franquia + R$ 500
Exemplo:
- Franquia: R$ 3.000
- Prejuízo: R$ 3.200
Você paga R$ 3.000 de franquia, o seguro paga R$ 200. Você gastou R$ 3.000 para economizar R$ 200. Não compensa. Melhor pagar os R$ 3.200 do próprio bolso e não acionar (mantém bônus e evita aumento).
Casos especiais: como agir
O outro motorista não tem seguro
Se você tem seguro:
- Acione sua seguradora (cobertura compreensiva cobre mesmo que o culpado não tenha seguro)
- A seguradora conserta seu carro e depois cobra o culpado judicialmente (direito de regresso)
Se você não tem seguro:
- Faça o B.O.
- Pegue orçamentos do conserto (3 oficinas)
- Mande para o outro motorista e dê prazo de 15 dias
- Se ele não pagar, procure o Juizado Especial Cível (causas até R$ 20 mil não precisam de advogado)
Batida em estacionamento (sem identificação do culpado)
Problema: Você volta ao estacionamento e encontra o carro amassado. Ninguém deixou bilhete.
O que fazer:
- Fotografe o carro e o local
- Peça as câmeras de segurança do estabelecimento (eles são obrigados a fornecer se houver)
- Faça B.O.
- Se identificar o responsável pelas câmeras, acione-o judicialmente
- Se não identificar, seu seguro cobre (cobertura compreensiva)
Atenção: Cobertura apenas contra terceiros NÃO cobre batida sem identificação.
O outro motorista fugiu
O que fazer:
- Anote a placa (ou o máximo de informações do carro)
- Procure testemunhas imediatamente
- Faça B.O. relatando a fuga
- Com a placa, você pode identificar o proprietário pelo Detran (via B.O.)
- Acione seu seguro (se tiver) e ele faz o direito de regresso
Crime: Fuga do local de acidente é crime. A pessoa pode ser processada criminalmente.
Números importantes (salve no celular agora)
- SAMU (Urgências médicas): 192
- Polícia Militar: 190
- Bombeiros: 193
- Polícia Rodoviária Federal (rodovias): 191
Tenha sempre à mão:
- Telefone da sua seguradora (está na apólice e no adesivo do vidro)
- Número da apólice
- Nome do seu corretor
O que fazer após os 5 minutos?
Os primeiros 5 minutos passaram. Agora você precisa:
Dentro de 24 horas:
- Ligar para sua seguradora e relatar o sinistro (mesmo que ainda não decida se vai acionar)
- Fazer o B.O. (se ainda não fez)
Dentro de 3 dias:
- Pegar orçamentos do conserto (3 oficinas diferentes)
- Enviar documentação para a seguradora (fotos, B.O., orçamentos)
Dentro de 8 dias:
- Prazo legal para comunicar sinistro à seguradora (não perca esse prazo ou pode perder a cobertura)
Conclusão: você vai ficar bem
Bater o carro é assustador. Mas seguindo esses passos, você minimiza o prejuízo e o estresse.
Lembre-se: o importante é que todos estejam bem. Carro se conserta. Vida não.
Se você ainda não tem seguro, esse pode ser o momento de perceber como ele faz falta. E se você tem, agora sabe como usá-lo da forma certa.
Respira fundo. Você fez o melhor que podia. O resto é resolver com calma.

